sábado, 20 de abril de 2013

O Sentimento e o Consentimento [Tentação, luta contra o pecado, evangelização, Frei Elias Vella}


O Sentimento e o Consentimento

"O sentimento não é reprovável. O consentimento sim." (Santo Padre Pio de Pietrelcina)


     Escrevo agora de modo especial àqueles que se dedicam a evangelizar e empreendem esforços para levar o nome de Cristo Jesus e seu Evangelho a toda criatura. Escrevo, pois sinto no coração que todos nós precisamos compreender melhor as dificuldades pelas quais passamos e as provas cada vez mais intensas e frequentes a que nossa fé é exposta.

Inicialmente, gostaria de esclarecer, como bem o fazem os grandes confessores, que há uma diferença muito grande – eu diria imensa – entre o sentimento e o consentimento. E é justamente nisso que consiste o propósito deste texto, que é estabelecer alguns parâmetros que sirvam de auxílio, consolo e ânimo a todos os que enfrentam grandes contradições em relação aos esforços que empreenderam no trabalho realizando na Vinha do Senhor (trabalhos na Igreja e na Evangelização, especialmente dos jovens).

O Livro do Eclesiástico, em seu capítulo 2, traz uma passagem interessantíssima, que eu transcrevo abaixo:


“...Meu filho, se você se apresenta para servir ao Senhor, prepare-se para a provação. Tenha coração reto, seja constante e não se desvie no tempo da adversidade. Una-se ao Senhor e não se separe, para que no último dia você seja exaltado. Aceite tudo o que lhe acontecer, e seja paciente nas situações dolorosas, porque o ouro é provado no fogo e as pessoas escolhidas, no forno da humilhação. Confie no Senhor, e Ele o ajudará; seja reto o seu caminho e espere no Senhor.

Vocês que temem ao Senhor, confiem na misericórdia dele, e não se desviem, para não caírem. Vocês que temem ao Senhor, confiem nele, que não lhes negará a recompensa de vocês. (...) Porque o Senhor é compassivo e misericordioso, perdoa os pecados e salva no tempo do perigo. (...) Os que temem ao Senhor procuram agradar-lhe, e aqueles que o amam cumprem a Lei. Os que temem ao Senhor preparam seus corações, e diante dele se humilham. Cada um  de nós se coloque nas mãos do Senhor, e não nas mãos dos homens, pois a misericórdia dele é como sua grandeza.”


 Você percebeu bem? Então precisamos ter em mente que, a partir do momento em que estamos a serviço do Senhor, vamos sofrer com tentações e tribulações, observando-se que a Palavra fala, inclusive, em humilhações. Mas nenhum desses sofrimentos têm comparação com a graça e a glória que é servir a Deus.

Portanto, se você exerce algum trabalho pastoral (catequista, coordenador de movimento, participante ou presta algum tipo de auxílio na Igreja) saiba que você vai ser provado, ou seja, submetido a contradições, situações difíceis, além de muitas incompreensões, ingratidão e falta de reconhecimento. Mas você não deve ter medo, isso é apenas para afastar aqueles que estão ali apenas para “aparecer” e para que Deus possa valorizar os seus esforços e conceder-lhe cada vez mais e mais méritos. Dessa forma, quanto mais você se incomodar ou sofrer por causa de Jesus e do trabalho na Igreja, melhor para você. Deus permite isso, mas é para o seu bem, porque achou você merecedor (a) de padecer algum sofrimento por amor do santo nome de Jesus.

Os sofrimentos, incômodos, incompreensões, perseguições, calúnias, difamação, etc. são uma comprovação de que Jesus está com você. Isso tanto é verdade que o próprio Jesus também passou por isso.

Voltando ao tema central, observo que todos os servos, especialmente os mais dedicados e zelosos, estão sendo e serão tentados (as). Disso ninguém escapa, nem os servos menores e nem os mais eloquentes.

O objetivo dessas tentações – que não provêm de Deus, muito embora Ele as permita – é fazer com que o servo desanime e desista, deixando a obra por fazer, incompleta, com prejuízos evidentes a todos os que seriam beneficiados. Também se percebe que o objetivo do tentador é levar o servo (seja leigo, seja religioso, religiosa, ordenado..) à ruína, com o envolvimento em fatos escandalosos.

O desânimo é a pior de todas as tentações, pois ele escancara a alma a diversos outros sentimentos nocivos e prejudiciais.  Quando um servo de Deus desanima, ele deixa de realizar adequadamente o seu trabalho e logo começa a sentir involuntariamente inveja e rejeição por aqueles que o substituíram ou o criticaram. Logo outros sentimentos de rancor e ódio começam a tomar conta, a ponto de o fiel tornar-se exatamente o oposto de tudo o que ele pretendia ser quando iniciou seu trabalho na Igreja.

O inimigo só precisa de uma brecha para nos sugerir suas maldades. O desânimo faz um rombo, e isso é muito mais do que uma brecha. 

Portanto, é preciso saber lidar com as tentações, porque “aos provados na tentação é prometida a consolação celestial. ‘Ao que vencer, diz o Senhor, darei a comer o fruto da árvore da vida.’ (Apocalipse, 2,7)” (Livro Imitação de Cristo, Livro II, parágrafo 7).

O Padre Caetano Caon, com atuação nas Dioceses de Vacaria/RS e Manaus/AM, durante muitos anos ensinou que: “Não é pecado o SENTIR, mas o CONSENTIR”.  Isso significa dizer que há uma diferença muito grande a respeito dessas duas situações.

Ainda sobre o ensinamento do notável sacerdote, observo que não temos controle nem domínio sobre o nosso sentimento. Não escolhemos de quem gostamos ou o que queremos ou o que nos atrai, isso está fora do nosso controle. Em outras palavras, isso quer dizer que o SENTIR não está no nosso controle, mas o CONSENTIR está sob a regência de nossa vontade e se  chegarmos a esse ponto,  ou seja, se diante do sentimento nós temos o consentimento, aí sim, estamos violando os mandamentos.


Muito importante é o magistério do Frei Elias Vella:

“...O diabo consegue reconhecer os nossos pensamentos mais íntimos, diz São Tomás. (...) Pode também influenciar nossos cérebros, perturbar as ideias, distorcer a verdade e obscurecer a inteligência. Ele pode também nos induzir ao mal, mexendo com nossas emoções (...). Ele pode também caçoar de nós, trazer à nossa mente fantasias sexuais e às vezes até aparências de natureza sexual. Certamente, não estou aqui dizendo que tudo de estranho que acontece conosco, venha do diabo. Estou aqui, somente afirmando quais os poderes que o diabo de fato tem.” (do livro O AntiCristo. Quem é e como age”, Frei Elias Vella, Editora Palavra e Prece, páginas 124-5).

 
Frei Elias Vella

Portanto, no SENTIR não há pecado, ainda que sejamos perturbados por muitos pensamentos impuros. Com efeito, enquanto resistimos a esses pensamentos e não consentimos com as ofertas de pecado que recebemos, nós não só não pecamos como estamos angariando méritos para a eternidade. Em outras palavras, quanto mais resistimos à tentação, maiores serão os nossos méritos, desde que, obviamente, não viemos a CONSENTIR no mal que nos é oferecido.

Mas é preciso também dizer que não podemos brigar com esses pensamentos inoportunos. Nós temos de resistir, não brigar com eles. Se a nossa mente é invadida por um pensamentos de pecado, como o desejo de envolver-se em situações de adultério ou pecado contra a castidade, precisamos resistir e desprezar conscientemente a “proposta” do tentador.

Vamos imaginar o seguinte. Você entra em camelódromo imenso numa cidade grande. Ali estão sendo oferecidos muitos produtos. Você percorre toda a extensão do camelódromo e visualiza muitos e variados produtos, desde eletrônicos até artesanato. Pode ser até que você se sinta atraído (a) a adquirir um ou outro produto, mas você não o fará, especialmente se o produto for daqueles que se estragam com facilidade. Você sabe que é “jogar dinheiro fora” comprar certas coisas e, apesar da vontade de comprar, não compra. Deu vontade, mas você disse: “Não vou jogar dinheiro fora num radinho que vai durar uma semana ou menos até”. E você acaba saindo do camelódromo sem comprar nada, pois sabe que é só uma ilusão de momento.

Em relação às tentações é a mesma coisa, guardadas as devidas proporções, evidentemente.

Diariamente somos bombardeados por ofertas de pecado, especialmente no tocante à castidade e a fidelidade matrimonial. Basta ligar a TV ou acessar a Internet, as imagens apelativas estão por toda parte. Mas aí eu me lembro do camelódromo, de que tantas coisas são oferecidas, mas algumas simplesmente não me convêm e me colocariam em pecado grave ou mortal. Você, diante dessa situação, resiste e pensa consigo mesmo: “Não vou jogar minha eternidade, paz, convívio com Deus, felicidade, na lata do lixo por um momento que vai durar só uns minutos, mas com consequências graves e talvez irremediáveis.”


Você entendeu? As propostas de pecado são só uma ilusão de momento. Você precisar RESISTIR, desprezando-as, e REAGIR, repudiando-as e saindo da ocasião que o (a) deixa vulnerável.

Diante da tentação, a melhor postura é RESISTIR e, depois, REAGIR. É desprezar a proposta inicial do inimigo e colocar-se distante da ocasião de pecado.


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        Mas e se a tentação fica tão forte a ponto de me arrastar, o que fazer? 

         A devoção e adoração eucarística têm um efeito simplesmente maravilhoso. É impressionante como a tentação perde a força quando estamos diante do Santíssimo Sacramento, adorando a presença real e concreta de Jesus. 


      A recitação do Santo Rosário também tem um efeito devastador contra as tentações. É impressionante como o demônio se perturba pelo simples ressoar da Ave-Maria.... Não é por outro motivo que os réprobos e hereges se levantam com tanta violência contra a devoção à Virgem Maria e ao reconhecimento à presença real e concreta de Jesus na Eucaristia.


        Ainda sobre a devoção à Virgem Maria, transcrevo mais alguns trechos da obra do Frei Elias Vella:



"Certa vez um exorcista famoso me disse que o diabo fica mais incomodado e se enche de raiva quando alguém fala o nome de Maria, do que quando fala o Nome do próprio Jesus.  (...) Maria o tira do sério! O nome dela faz com que ele sinta raiva, fique nervoso! Ele não a suporta. (...) A humildade dela o perturba. Ela o incomoda e o expõe ao ridículo.  (...) Ninguém melhor do que Maria para combatê-lo.  (...) Maria unida a Jesus esmaga a cabeça da serpente. (...) Maria é a inimiga mais poderosa de quem o diabo tem medo. Ele tem medo de Maria (...). Sua arrogância e seu orgulho o fazem sofrer tremendamente, especialmente diante da humildade dela.  (...) Portanto, podemos compreender facilmente por que o diabo faz de tudo para interferir de todas as maneiras, colocando obstáculos contra qualquer devoção com relação à Virgem Maria. De Fato, - comenta São Maximiliano Kolbe – ‘o diabo faz de tudo para manter a alma distante da intimidade com a Virgem Maria.' (...) A devoção que o diabo menos suporta é a do Rosário. (...) As contas do Rosário o assustam tanto que, em seus ataques, com frequência ele o destrói, deixando-o em pedaços.” (Do livro O AntiCristo, quem é e como age. Editora Palavra & Prece. Páginas 183-85.)
      

       A confissão sacramental também é de extrema importância, pois a partir do momento em que você conta a tentação, a resposta do padre sempre será uma vacina contra o desânimo que a tentação provoca. Além disso, durante a confissão o próprio Jesus age em nossas almas, é o próprio Senhor que nos toca e perdoa, servindo-se do padre como instrumento.

       
         Além disso, é fundamental a assiduidade à Santa Missa. Aliás, não há nada no mundo mais importante do que a Missa, pois na Missa há um calvário renovado, com a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.  A missa tem tudo, tem Jesus, tem Maria, tem os anjos, tem oração, perdão dos pecados, louvor, ofertório, comunhão, bênção, cura, milagre e restauração. 

         
Espero ter ajudado você. Deus abençoe sempre.








domingo, 14 de abril de 2013

Por que o Rosário tem tantas repetições? [São Domingos - Santo Rosário - Jesus - Maria]



Por que o Rosário tem tantas repetições?

Algumas pessoas se perguntam. Outras questionam. Outras tantas criticam o que não conhecem.
Mas você sabe por que o Rosário tem tantas repetições?

Segundo se sabe a respeito da história do notável São Domingos, havia nos idos anos de 1200 a 1214 uma intensa e sangrenta batalha envolvendo católicos e os hereges albigenses. Diante da gravidade da situação e do predomínio e do aparente triunfo da heresia, São Domingos adentrou em uma densa floresta  existente nas proximidades da cidade francesa hoje conhecida como Toulouse, local onde permaneceu três dias e três noites em contínua oração, penitência, jejum e autoflagelação, implorando a Deus que se compadecesse da Cristandade e da própria glória de Cristo pisoteada pelos hereges albigenses.

Em meio a tanta dor e esforço, São Domingo cai como que em desmaio, semimorto, ocasião em que a Santíssima Virgem Maria a ele se manifesta, com as seguintes palavras:

"... ‘Sabes tu, meu caro Domingos, de que arma a Santíssima Trindade se serviu para reformar o mundo?' (...) ‘O instrumento principal dessa obra foi o Saltério angélico, que é o fundamento do Novo Testamento. Portanto, se queres ganhar para Deus esses corações endurecidos, reza meu Saltério'.”


Importante referir que o saltério, na antiguidade, era um instrumento musical semelhante a uma cítara, utilizado para acompanhar o cantar dos salmos. O termo também se refere ao próprio conjunto de salmos e textos devocionais (calendário litúrgico e litania dos santos). Sob a luz do Novo Testamento e da jornada dos cristãos sobre a terra, o SALTÉRIO é o Santo Rosário, ou seja, o conjunto de orações meditando os mistérios da Redenção, que hoje – após a modificação realizada pelo Papa João Paulo II – tem 01 (um) Creio (Credo), 21 Pai-Nossos, 203 Ave-Marias, 21 Glórias e 21 vezes a oração “Ó meu Jesus perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o Céu e socorrei principalmente as que mais precisarem.”



Mas, qual a razão das repetições?

Explico:

A cada Ave-Maria, a cada Pai-Nosso, se renovam a oferta, a petição e o louvor. Maria, Mãe de Nosso Senhor, matriz do Deus feito ser humano por obra do Espírito Santo, aceita cada oração, cada oferta, cada intenção, sempre renovada. O que oferecemos em oração, repetidamente, Jesus, pelas mãos de Maria, recebe, acolhe e providencia. Nós oferecemos, Ele recebe (pelas mãos de Maria). Nós oferecemos de novo, Ele recebe de novo (pelas mãos de Maria). E tantas e quantas vezes oferecermos, Ele receberá, de novo, continuamente, pelas mãos de Maria.

Mas se eu ofereci uma vez, preciso oferecer de novo? Sim, é preciso oferecer de novo, pois Jesus aceitará novamente, pelas mãos de Maria. Isso jamais se esgotará, pois a cada oferta, Jesus aceita de novo.

E a razão pela qual o Santo Rosário é tão poderoso é que toda oferta a Deus é feita pelas mãos de Maria, ou seja, nós rezamos o Rosário, Maria toma nossas ofertas, embeleza-as e as enche de méritos, e as entrega a Jesus. O Filho, tomado pelo extremoso afeto que nutre por sua genitora, acolhe a oferta potencializada pelos méritos da Mulher, e procede de acordo com o divinos desígnio, suscitando todo bem, toda graça, enfim, todo o necessário a cada fiel que piedosamente recita o Rosário.

Assim como uma muralha se constrói com um bloco de pedra de cada vez, assim a alma se fortalece e alcança tudo o que precisa para si e para os outros através do SANTO ROSÁRIO – uma Ave-Maria de cada vez, repetidamente -, que, além de ser canal de toda forma de graça, é um poderoso escudo contra o ódio de satanás, que se vê impotente diante do fiel que cultiva tão poderosa devoção.


Também é bom observar que as orações do Santo Rosário, as Ave-Marias, o Pai Nosso eo Creio são bíblicas e têm, inclusive, reproduções exatas da Escritura, como a saudação do Anjo Gabriel, o louvor de Isabel a oração ensinada pessoalmente por Jesus. As jaculatórias tem, do mesmo modo, inspiração na Escritura e pedidos em prol dos pecadores.
A tudo isso alie-se o AMOR, que divinisa todas as obras.
São José Maria Escrivá ensinou que:
"- Queres amar a Virgem? - Pois então conversa com Ela! - Como? - Rezando bem o  Rosário de Nossa Senhora.
Mas, no Rosário... dizemos sempre o mesmo! - Sempre o mesmo? E não dizem sempre a mesma coisa os que se amam?... Se há monotonia no teu Rosário, não será porque, em vez de pronunciares palavras, como homem, emites sons, como animal, estando o teu pensamento muito longe de Deus? - Além disso, repara: antes de cada dezena, indica-se o mistério a contemplar - Tu... já alguma vez contemplaste esses mistérios?
 "
Importante registrar que o SANTO ROSÁRIO é uma ORAÇÃO CRISTOLÓGICA, ou seja, centrada na pessoa de JESUS. Em outras palavras, muito embora a devoção seja essencialmente mariana, trata-se de oração que tem como fim primeiro e último a pessoa de JESUS CRISTO.

Isso significa dizer que a finalidade do ROSÁRIO é JESUS. De Jesus, por Jesus, para Jesus, pelas mãos de Maria.


Por último, observo que a devoção do Santo Rosário não é garantia de uma vida cômoda, sem contradições e tribulações. Alíás, o próprio Jesus disse que "quem quiser me seguir tome a sua cruz e  siga-me". Isso significa que haverá muitas lutas, mas todas serão ocasião de VITÓRIA, para a glória e honra da Santíssima Trindade e para o nosso bem.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Bendita seja a Santa e Imaculada Conceição.


domingo, 7 de abril de 2013

Filme de Padre Pio - Agora Disponível na Internet.



Prezados amigos, clicando no link abaixo pode-se assistir o filme "Padre Pio".

Sugiro que quem puder adquira o DVD original, pois se os produtores não tiverem o retorno necessário não farão mais filmes maravilhosos como este. (depois de apertar no "play", é preciso esperar alguns minutos para carregar...)

http://gloria.tv/?media=228744



Eis o filme, é só clicar e boa bênção...


sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Virtude da Paciência - A Paciência Dá Glória a Deus...


A Paciência - Por São Francisco de Sales













Por São Francisco de Sales


A paciência, diz o Apóstolo, vos é necessária para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis o que Ele vos tem prometido. Sim, nos diz Jesus Cristo, possuireis vossas almas pela paciência.
O maior bem do homem consiste, Filotéia, em possuir seu coração e tanto mais o possuímos quanto mais perfeita é nossa paciência; cumpre, portanto, aperfeiçoarmos nesta virtude. Lembra-te também que, tendo Nosso Senhor nos alcançado todas as graças da salvação pela paciência de Sua vida e de Sua morte, nós também no-las devemos aplicar por uma paciência constante e inalterável nas aflições, nas misérias e nas contradições da vida.
Não limites a tua paciência a alguns sofrimentos, mas estende-a universalmente a tudo o que Deus te mandar ou permitir que venha sobre ti. Muitas pessoas há que de boa mente querem suportar os sofrimentos que têm um certo cunho de honroso: ter sido ferido numa batalha, ter sido prisioneiro ao cumprir seu dever, ser maltratado pela religião, perder todos os seus bens numa contenda de honra, da qual saíram vencedores, tudo isso lhes é suave; mas é a glória e não o sofrimento o que amam.
O homem verdadeiramente paciente tolera com a mesma igualdade de espírito os sofrimentos ignominiosos como os que trazem honra. O desprezo, a censura e a deseducação dum homem vicioso e libertino é um prazer para uma alma grande; mas sofrer esses maus tratos de gente de bem, de seus amigos e parentes, é uma paciência heróica. Por isso aprecio e admiro mais o Cardeal São Carlos Borromeu, por ter sofrido em silêncio, com brandura e por muito tempo, as invectivas públicas que célebre pregador duma ordem reformada fazia contra ele do púlpito, do que ter suportado abertamente os insultos de muitos libertinos; pois, como as ferroadas das abelhas doem muito mais que as das moscas, assim as contradições procedentes de gente de bem magoam muito mais do que as que provêm de homens viciosos. Acontece, no entanto, muitas vezes que dois homens de bem, ambos bem intencionados, pela diversidade de opiniões, se afligem mutuamente não pouco.
Tem paciência não só com o mal que sofres, mas também com as suas circunstâncias e conseqüências. Muitos se enganam neste ponto e parecem desejar aflições, recusando, entretanto, sofrer suas incomodidades inseparáveis. Não me afligiria, diz alguém, de ficar pobre, contanto que a pobreza não me impedisse de ajudar a meus amigos, de educar meus filhos, e de levar vida honrosa. E eu, declarava um outro, pouco me inquetaria disso, se o mundo não atribuísse esta desgraça à minha imprudência. E eu, dizia ainda um terceiro, nada me importaria esta calúnia, contanto que não achasse crédito em outras pessoas. Muitos há que estão prontos a sofrer uma parte das incomodidades conjuntas aos seus males, mas não todas, dizendo que não se impacientam de estar doentes, mas do trabalho que causam aos outros e da falta de dinheiro para se tratar.
Digo, pois, Filotéia, que a paciência nos obriga a querer estar doentes, como Deus quiser, da enfermidade que Ele quiser, no lugar onde Ele quiser, com as pessoas e com todos os incômodos que Ele quiser; e eis aí a regra geral da paciência! Se caíres numa enfermidade, emprega todos os remédios que Deus te concede; pois esperar alívio sem empregar os meios seria tentar a Deus; mas, feito isso, resigna-te a tudo e, se os remédios fazem bem, agradece a Deus com humildade e, se a doença resiste aos remédios, bendize-o com paciência.
Sou do parecer de S. Gregório, que diz: Se te acusarem de uma falta verdadeira, humilha-te e confessa que mereces muito mais que esta confusão. Se a acusação é falsa, justifica-te com toda a calma, porque o exigem o amor à verdade e a edificação do próximo. Mas, se tua escusa não for aceita, não te perturbes, nem te esforces debalde para provar a tua inocência, porque, além dos deveres da verdade, deves cumprir também os da humildade. Assim, não negligenciarás a tua reputação e não faltarás ao afeto que deves ter à mansidão e humildade do coração.
Queixa-te o menos possível do mal que te fizeram; pois queixar-se sem pecar é uma coisa raríssima; nosso amor-próprio sempre exagera aos nossos olhos e ao nosso coração as injúrias que recebemos. Se houver necessidade de te queixares ou para abrandar o teu espírito ou para pedir conselhos, não o faças a pessoas fáceis de exaltar-se e de pensar e falar mal dos outros. Mas queixa-te a pessoas comedidas e tementes a Deus, porque, ao contrário, longe de tranqüilizar a tua alma, a perturbarias ainda mais e, em lugar de arrancares o espinho do coração, o cravarias ainda mais fundo.
Muitos numa doença ou numa outra tribulação qualquer guardam-se de se queixar e mostrar a sua pouca virtude, sabendo bem (e isto é verdade) que seria fraqueza e falta de generosidade; mas procuram que outros se compadeçam deles, se queixem de seus sofrimentos e ainda por cima os louvem por sua paciência. Na verdade temos aqui um ato de paciência, mas certamente duma paciência falsa, que na realidade não passa dum orgulho muito sutil e duma vaidade refinada.
Sim, diz o Apóstolo, tem de que gloriar-se, mas não diante de Deus. Os cristãos verdadeiramente pacientes não se queixam de seus sofrimentos nem desejam que os outros os lamentem; se falam neles é com muita simplicidade e ingenuidade, sem os fazer maiores do que são; se outros os lamentam, ouvem-nos com paciência, a não ser que tenham em vista um sofrimento que não existe, porque, então, lhes declaram modestamente a verdade; conservam assim a tranqüilidade da alma entre a verdade e a paciência, manifestando ingenuamente os seus sofrimentos, sem se queixarem.
Nas contrariedades que te sobrevierem no caminho da devoção (pois que delas não hás de ter falta), lembra-te que nada de grande podemos conseguir neste mundo sem primeiro passarmos por muitas dificuldades, mas que, uma vez superadas, bem depressa nos esquecemos de tudo, pelo íntimo gozo que então temos de ver realizadas as nossas aspirações. Pois bem, Filotéia, queres absolutamente trabalhar para formar a Jesus Cristo, como diz o Apóstolo, em teu coração, como em tuas obras, pelo amor sincero de Sua doutrina e pela imitação perfeita de Sua vida. Há de custar-te algumas dores, sem dúvida; mas hão de passar e Jesus Cristo, que viverá em ti, há de encher tua alma duma alegria inefável, que ninguém te poderá furtar.
Se caíres numa doença, oferece as tuas dores, a tua prostração e todos os teus sofrimentos a Jesus Cristo, suplicando-Lhe de os aceitar em união com os merecimentos de Sua paixão. Lembra-te do fel que Ele bebeu por teu amor e obedece ao médico, tomando os remédios e fazendo tudo o que determinar por amor de Deus. Deseja a saúde para O servir, mas não recuses ficar muito tempo doente para obedecer-Lhe e mesmo dispõe-te a morrer, se for a Sua vontade, para ir gozar eternamente de Sua gloriosa presença.
Lembra-te, Filotéia, que as abelhas, enquanto fazem o mel, vivem dum alimento muito amargo e que nunca nós outros poderemos encher mais facilmente o coração desta santa suavidade, que é fruto da paciência, do que comendo com paciência o pão amargo das tribulações que Deus nos envia; e quanto mais humilhantes forem, tanto mais preciosa e agradável se tornará a virtude ao nosso coração.
Pensa muitas vezes em Jesus crucificado; considera-O coberto de feridas, saturado de opróbrios e dores, penetrado de tristeza até ao fundo de Sua alma, num desamparo e abandono completo, carregado de calúnias e maldições; verás então que tuas dores não se podem comparar às Suas, nem em quantidade, nem em qualidade, e que jamais sofrerás por Ele alguma coisa de semelhante ao que Ele sofreu por ti.
Compara-te aos mártires, ou, sem ires tão longe, às pessoas que sofrem atualmente mais do que tu e exclama, louvando a Deus: Ah! meus espinhos me parecem rosas e minhas dores, consolações, se me comparo àqueles que vivem sem socorros, sem assitência e sem alívio, numa morte contínua, opressos de dores e de tristezas.
(São Francisco de Sales, FILOTÉIA, trad. Frei João José P. de Castro, O.F.M., págs. 180-186, Editora Vozes, 16ª edição, 2008.)

TRATADO DA CASTIDADE Bem-aventurados os puros. (SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO)



TRATADO DA CASTIDADE
Bem-aventurados os puros.
(SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO)



Ninguém melhor que o Espírito Santo saberá apreciar o valor da castidade. Ora, Ele diz: "Tudo o que se estima não pode ser comparado com uma alma continente" (Ecli 26, 20), isto é, todas as riquezas da terra, todas as honras, todas as dignidades, não lhe são comparáveis. Santo Efrém chama a castidade de "a vida do espírito"; São Pedro Damião, "a rainha das virtudes"; e São Cipriano diz que, por meio dela, se alcançam os triunfos mais esplêndidos. Quem supera o vício contrário à castidade, facilmente triunfará de todos os mais; quem, pelo contrário, se deixa dominar pela impureza, facilmente cairá em muitos outro vícios e far-se-á réu de ódio, injustiça, sacrilégio, etc.

A castidade faz do homem um anjo. "Ó castidade, exclama Santo Efrém (De cast.), tu fazes o homem semelhante aos anjos". Essa comparação é muito acertada, pois os anjos vivem isentos de todos os deleites carnais; eles são puros por natureza; as almas castas, por virtude. "Pelo mérito desta virtude, diz Cassiano (De Coen. Int., 1. 6, c. 6), assemelham-se os homens aos anjos"; e São Bernardo (De mor. et off., ep., c. 3): "O homem casto difere do anjo não em razão da virtude, mas da bem-aventurança; se a castidade do anjo é mais ditosa, a do homem é mais intrépida". "A castidade torna o homem semelhante ao próprio Deus, que é um puro espírito", afirma São Basílio (De ver. virg.).

O Verbo Eterno, vindo a este mundo, escolheu para Sua Mãe uma Virgem, para pai adotivo um virgem, para precursor um virgem, e a São João Evangelista amou com predileção porque era virgem, e, por isso, confiou-lhe Sua santa Mãe, da mesma forma como entrega ao sacerdote, por causa de sua castidade, a santa Igreja e Sua própria Pessoa.

Com toda a razão, pois, exclama o grande doutor da Igreja, Santo Atanásio (De virg.): 'Ó santa pureza, és o templo do Espírito Santo, a vida dos Anjos e a coroa dos Santos!".

Grande, portanto, é a excelência da castidade; mas também terrível é a guerra que a carne nos declara para no-la roubar. Nossa carne é a arma mais poderosa que possui o demônio para nos escravizar; é, por isso, coisa muito rara sair-se ileso ou mesmo vencedor deste combate. Santo Agostinho diz (Serm. 293): "O combate pela castidade é o mais renhido de todos: ele repete-se cotidianamente, e a vitória é rara". "Quantos infelizes que passaram anos na solidão, exclama São Lourenço Justiniano, em orações, jejuns e mortificações, não se deixaram levar, finalmente, pela concupiscência da carne, abandonaram a vida devota da solidão e perderam, com a castidade, o próprio Deus!"

Por isso, todos os que desejam conservar a virtude da castidade devem ter suma cautela: "É impossível que te conserves casto, diz São Carlos Borromeu, se não vigiares continuamente sobre ti mesmo, pois negligência traz consigo mui facilmente a perda da castidade".