domingo, 16 de setembro de 2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

"Fé e medicina devem ser combinadas", diz médico norte-americano Harold G. Koenig.


"Fé e medicina devem ser combinadas", diz médico norte-americano Betina Humeres/especial/Agencia RBS

Para o especialista, a fé é boa para a saúde, mas a medicina também éFoto: Betina Humeres/especial / Agencia RBS
Coordenado pelo cirurgião cardiovascular Fernando Lucchese, o seminário Intercrenças discutirá, nesta sexta-feira, o papel da religiosidade na saúde dos pacientes. Com entrada gratuita, o evento promovido pela Santa Casa de Porto Alegre no Teatro Bourbon Country terá sacerdotes discorrendo sobre temas como "A cura espiritual da doença crônica" e "A oração como apoio na doença".
O principal convidado é o médico norte-americano Harold G. Koenig, apresentado pelos promotores como autoridade mundial no conhecimento da espiritualidade e sua influência sobre a saúde. Uma peculiaridade de Koenig é que, além de afirmar os benefícios da fé para a saúde, ele sustenta que os crentes são mais altruístas, recomenda que as pessoas rezem e frequentem a missa, cita as escrituras em conversas sobre ciência — e acredita que o benefício para a saúde pode ocorrer por intervenção direta de Deus.
As opiniões do profissional são controversas. Um de seus principais críticos, Richard Sloan, da Universidade Columbia (EUA), afirma que os cerca de 40 livros de Koenig "são sempre o mesmo livro repetido" e diz que os mais de mil artigos que ele costuma citar para corroborar suas posições são muito menos numerosos e não têm relação direta com o que ele afirma.
Koenig, que concedeu a entrevista a seguir por e-mail, está lançando no país o livroMedicina, Religião e Saúde (L&PM). Em sua apresentação à obra, Fernando Lucchese afirma que agregou a nova linha de investigação em seu serviço de cardiologia na Santa Casa, "sempre sob orientação do Dr. Koenig".
Confira a entrevista com Harold G. Koenig, diretor do Centro para Teologia, Espiritualidade e Saúde e professor da Universidade Duke.
Zero Hora — Há evidências científicas de que ser religioso é bom para a saúde?
Harold Koenig — Existem mais de 2 mil estudos baseados em dados quantitativos, publicados em periódicos científicos, que documentam uma relação positiva e significativa entre envolvimento religioso e condição de saúde, tanto mental quanto física. Cerca de 80% da pesquisa existente é sobre saúde mental, e 20% sobre saúde física. Há mais de 120 estudos que examinam a relação entre envolvimento religioso e mortalidade — mais de dois terços deles mostram que, quanto mais religiosas as pessoas são, mais tempo elas vivem.
ZH — Qual seria a explicação científica para os benefícios obtidos por pessoas religiosas?
Koenig — São três vias: melhor saúde mental (fortes crenças religiosas dotam a pessoa de mais propósito, significado, esperança e felicidade), melhor saúde social (mais apoio social, mais altruísmo e ajuda dos outros, maior estabilidade conjugal) e comportamentos mais saudáveis (menos consumo de cigarros, menos alcoolismo, menos drogas, menos práticas sexuais de risco).
ZH — O que é melhor para uma pessoa com depressão: procurar um psiquiatra ou um padre?
Koenig — Depende da gravidade. Se não é grave, um padre está bom. Se for grave, será necessário um psiquiatra.
ZH — Os benefícios da religiosidade funcionam como uma espécie de efeito placebo, no qual o paciente melhora porque acredita que Deus vai ajudá-lo?
Koenig — Efeito placebo não é um bom termo para descrever o que ocorre — significa que não existe um elemento ativo para o tratamento e que tudo está na mente da pessoa. Mas não sabemos se Deus está agindo aqui. A Ciência não pode responder a essa questão. Talvez Deus esteja agindo, e nós não tenhamos os métodos científicos adequados para prová-lo.
ZH — Dizer que a fé ajuda a curar não coloca um peso extra sobre aqueles pacientes que não se recuperam e que podem se sentir abandonados por seu deus?
Koenig — As pessoas não deveriam rezar apenas para obter cura física. Talvez Deus considere a saúde menos importante do que outras coisas. Talvez o processo curativo seja ainda maior se ele curar relações com os outros ou curar a relação com Deus — isso pode afetar a pessoa por toda a eternidade. Por isso, se a ênfase é na saúde física, então Saúde se torna o Deus da pessoa. Isso desobedece ao primeiro mandamento, que diz "Não terás outros deuses diante de mim". Quando a saúde se torna Deus, as pessoas se desapontam.
ZH — Dizer que ter fé é bom para a saúde e leva à cura não traz o perigo de fazer pacientes desprezarem tratamentos médicos e se aferrarem a promessas divinas?
Koenig — A fé é boa para a saúde, mas a medicina também é. Elas devem ser combinadas para um maior benefício. Sozinhas, tanto a fé como a medicina não funcionam tão bem. As pessoas devem procurar seu médico para tratamento médico. E rezar e trabalhar no seu relacionamento com Deus.