sábado, 15 de janeiro de 2011

FREI FAUSTINO MATTIELLO – A ARTE DE ENSINAR A VIVER I


“Eu estou aqui há dezesseis anos, só ouvindo problemas dos outros, nunca ninguém disse que me amava ou que gostava de mim, mas eu não me preocupo com isso, porque eu amo...”

Prezados amigos do Blog Água Viva, há muito tempo tenho em mente a idéia de escrever sobre este extraordinário servo de Deus conhecido na Diocese de Vacaria/RS como Frei Faustino. Um homem simples e discreto, que realizou um trabalho silencioso de aconselhamento, consolação e motivação aos fiéis que recorriam aos seus préstimos.

Não vou falar sobre a história dele, pois isso pode ser facilmente pesquisado. Não vou dizer onde ele nasceu, quando se tornou padre, nem quando chegou a Vacaria/RS. Apenas quero compartilhar com vocês as impressões que tive, a respeito de um sacerdote com mostras e fama de santidade, que passou a maior parte da vida à cabeceira dos doentes, ouvindo-lhes as amarguras e aliviando-lhes os sofrimentos.

Ao que me lembro foi no ano de 1992. Eu tinha apenas 20 anos e já começava a ter muitas dificuldades para enfrentar as frustrações da vida. Um simples dissabor já era o suficiente para eu não mais conversar com quem me provocara tal situação. E assim foi, logo eu colecionava um número impressionante desafetos, pessoas com as quais eu não queria ter conversa alguma, sequer cumprimentava, tratava-as como estranhas, inclusive virando o rosto. Meu coração – a esta altura – já era um repositório de mágoas, raiva, ressentimentos e desejo de vingança.

Como qualquer pessoa sabe, ninguém suporta viver assim muito tempo, pois logo é tomado de muitas angústias a ponto de não mais encontrar descanso em situação alguma. A pessoa se torna amarga e de convivência simplesmente insuportável.

Mas – como eu dizia – foi no ano de 1992 que eu procurei o frei pela primeira vez. Acho que por mão providencial, pois não lembro de alguém tê-lo indicado a mim.

Ele atendia numa salinha existente na Casa Paroquial da Matriz Nossa Senhora de Fátima, havia ali três cadeiras de palha e – se não me falha a memória – uma mesa e um pequeno móvel com escaninhos. As cadeiras ficavam dispostas uma contra duas, ou seja, uma de frente para as outras duas cadeiras, de modo que o frei ouvia as pessoas olhando-as frente a frente. Havia também um corredor, que funcionava como sala de espera. O atendimento normalmente era individualizado, porém – por vezes – o frei atendia duas ou mais pessoas ao mesmo tempo, quando se tratava de uma questão familiar ou que exigia uma solução única para todas.

Muitas pessoas vinham de longe para falar com o frei, de maneira que chegava a ser difícil conseguir horários em algumas épocas.



O frei atendia terças, quartas e sextas, na parte da manhã e à tarde, e no sábado pela manhã.

Voltando à minha primeira conversa com o frei, lembro de ter dito a ele que estava sentido muita angústia, que não tinha paz e não descansava, que sofria muitas injúrias no meu trabalho e que havia passado num bom concurso, mas a nomeação estava demorando muito e não havia certeza que um dia seria nomeado.

Aquilo tudo era estranho, pois eu era solteiro, tinha trabalho e morava com meus pais num lar estável e alicerçado em valores cristãos; enfim, não sabia o que era ter problemas. Não precisei explicar muito, logo o frei começou a falar sobre o perdão e que devia abençoar todas as pessoas, mesmo aquelas que me perseguiam, caluniavam e incomodavam.

Ele dizia: “Deus é Amor! Se alguém te diz eu te odeio, você pensa, mas eu te quero bem e te abençôo." “ Se alguém te diz ‘eu não gosto de você’, você, da mesma forma, diz (mesmo que seja só em pensamento) ‘mas eu te quero bem e te abençôo'.”

Sobre as injúrias e humilhações que eu sofria no ambiente de trabalho, o frei ensinou a dinâmica do cavalo: “Se alguém o chama de cavalo e você fica irritado com isso, você já ‘engoliu’ o cavalo, o cavalo é seu. Mas, se você não se aceita, e responde a injúria com uma silenciosa bênção, o ‘cavalo’ volta para quem mandou. Você não deve engolir o cavalo, abençoe.”

Isso tudo soou inicialmente muito estranho. Abençoar quem me ofende? Mas que absurdo!

Eu sei que isso é o Evangelho ao pé da letra, que isso foi ensinado na catequese, que a Bíblia diz isso. Que Jesus disse isso. Mas na prática...

No final desse primeiro atendimento, o frei deu-me a bênção, que começava com uma mentalização.

Era assim. Ele solicitava que fechássemos os olhos e juntássemos as mãos entrelaçando os dedos, em posição de oração. Aí ele começava: “respire fundo, respire fundo, ...... afrouxe a cabeça e o pescoço.... deixe a mente descer, descer, .... sinta-se bem.... “. Aí o frei, que já sabia a causa da angústia e do sofrimento, dava sequência a este momento, dando ordens à mente e ao inconsciente, afirmações positivas. No final, o frei dizia: “eu conto até cinco e você vai abrir os olhos, 1, isso sinta-se bem, 2, ....... 3, 4, .....sinta-se bem..... 5. Então, estalava os dedos e mandava abrir os olhos.

Os instantes que se seguiam eram impressionantes. A alma era tomada de uma paz indescritível, era impossível não sair sorrido da sala do frei. Aliás, era impressionante o estado emocional das pessoas na sala da espera e a transformação pela qual elas passavam quando saiam da salinha do frei. Entravam arrasadas e saiam sorrindo. Entravam como mortos e saiam cheios de vida.

Foi assim que eu aprendi a não guardar mágoa das pessoas, especialmente dos familiares. Pois a cada ofensa eu respondo com minha bênção pessoal. Eu mesmo digo, “eu te abençôo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O fato de sermos leigos não nos impede de abençoar, principalmente em relação aos filhos, quando a bênção é um dever do pai e da mãe.

Numa outra oportunidade, voltei ao frei e me queixei que eu não me sentia amado e nem querido por determinada pessoa que eu gostava. O frei me respondeu: “Eu estou aqui há dezesseis anos, só ouvindo problemas dos outros, nunca ninguém disse que me amava ou que gostava de mim, mas eu não me preocupo com isso, porque eu amo...”. E aí completou o ensinamento dizendo, quem ama não condiciona este amor a qualquer reciprocidade, ou seja, quem ama não cobra o mesmo amor da outra pessoa, mas se dedica por quem ama e faz tudo sem interesse. Isso é o verdadeiro amor, o que passa disso são negócios, contratos, acordos, casamentos (no sentido jurídico que quer dizer um contrato nupcial).

Estas são apenas duas lições que recebi do frei, mas que me foram muito úteis na vida, pois não deixei que o mundo me transformasse, muito embora soubesse que não podia mudar o mundo, mas apenas melhorá-lo um pouquinho e ajudar estabelecer na terra, no meu inexpressivo local de atuação, o Reino de Deus.
Abençoar as pessoas, mesmo aquelas que nos fazem sofrer e amar sem esperar nada em troca, pois este é o princípio do verdadeiro amor ao próximo.

Em relação ao meu trabalho, o frei me tranqüilizou me dizendo que eu tinha um bom trabalho e que deveria ter paciência enquanto esperava a nomeação, que demoraria ainda um pouco (o que, de fato, demorou uns 18 meses). No ano de 1993, conforme o próprio frei me havia predito, fui nomeado no concurso que esperava, e venci uma situação difícil que já perdurava 5 anos. Foi uma grande vitória com a qual glorifico a Deus até hoje.

Aos leitores do blog, deixo consignado que logo escreverei outras histórias do Frei Faustino, este grande religioso que faleceu no dia 08 de setembro de 2009, deixando inúmeros órfãos de sua paternidade espiritual.

A alegria que eu trago é a promessa que o próprio frei fez para mim: “Eu te ajudo e, quando estiver no Céu, vou continuar te ajudando.”

Abaixo você posse ver o vídeo de homenagem, quando se completou um ano do falecimento do Frei Faustino.

Um forte abraço a todos.

Marcos Suzin.



Um comentário:

  1. Confirmo tudo o que foi dito a respeito desse grande filho de Deus. Ele também teve grande participação transformadora em minha vida.
    Parabéns Marcos pela matéria.
    Gabriel Lusiano Chedid.

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